Poema: Litania Contra o Pérfido

 por Sabrina Delfin Dias 


Intento em perpetar os mesmos desacertos que minha genetriz
Valia amortizada pela salvação desta cativa
Ai dessa fementida liberdade
Permuta deste ergástulo por outro

Não almejo mais entregar poder aos enodoados
No fim, sou mais livre que vós
Afundai-vos na mesquinha mesmice,
Com vossas ideias tão vis quanto patéticas

Exercer de meus feitos
Sim, erijo fortaleza que tu não farás em ruína
Pela primeira vez, em todo meu viver, há intento que tu não tocas
Não tocarás com tuas mãos podres

Mãos famintas por senhorio que nunca terás
Não, não mais
Miserável apodrecido, de consciência pútrida
O herói que tu foste já não existe mais

Por ele guardo luto profundo
Mas acolho o pérfido que tu te tornaste
Aquele que, quiçá, sempre foste
Confrontar-te-ei, ó vilão de minha história 

Ainda que minha carne se congele
Que minha pele torne a se rasgar
Que meus cabelos em chamas se consumam
E meus olhos derretam como cera

Não mais te outorgarei poder
Não serei doravante uma daquelas pobres almas 
Aquelas que tu condenas com tuas palavras pestilentas
Nem mais a mente desvalida que possas distorcer

Dualidade sublime e grotesca de minha vida
Criança belisária que ainda se encolhe em minha alma
Pueril que cubro como armadura
Dualidade irônica que fez de mim meu próprio nobre paladino

Quem me dera tirar a metafísica de meus sonhos 
Me dar ao luxo de repousar como donzela
Mas amaldiçoada seja essa vestal desasseada
Queime como a bruxa que eres para enfim fenecer


Arte: Stańczyk by Jan Matejko (1862)

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Nota da Autora:

Nesse poema eu brinco com termos arcaicos e contemporâneos como se o eu lírico estivesse nessa constante luta por uma ruptura. Dando adeus ao passado e se tornando um ser mais maduro e evoluído. Esse ato trás consigo o luto de algo que fora destruído, mas também há a possibilidade de algo novo.

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