Poema: Miss America

por Sabrina Delfin Dias

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Ela pisca seus olhos de corça e sorri

Sente o doce sabor dos comprimidos

Se pintando de si mesma, mas não é o bastante

Gritando sem ser ouvida, com a carne apodrecendo


A suave melodia das correntes

Em seus sonhos mais profundos ela era Miss America

É vista, é ouvida, é amada

E pela primeira vez ela é protegida


Mas ah… Como era solitária…


Os olhos de corça da Miss America se abrem 

Contemplando a grotesca realidade solitária

Ela não pertence a nada, e não vem de lugar nenhum

Ela não é filha de ninguém e muito menos é o amor de alguém


Os corpos vazios se esticam desesperados

Implorando atenção, querendo ser preenchidos

Mas Miss America apenas observa solitária

Desejando tudo, mas desprezando tudo


Como era solitária…


Miss America não se rasteja, e muito menos se desespera

Mas a solidão dança em seus olhos brilhantes e nas curvas do seu corpo

Tudo era tão vazio e solitário

Ah como era solitária...


Por sempre ser, ou não ser, boa demais

Inteligente demais, bonita demais, difícil demais

Mas de que isso importava? Miss America queria o que era impossível

Porque ela era boa demais e não era boa o suficiente


Arte: Automat (1927) por Edward Hopper


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Notas da Autora:

Nesse poema eu uso o termo "Miss America" como algo pejorativo. Como se olhassem para o eu lírico e dissessem "Olha lá ela! Se acha a Miss America".

Desejada por alguns e detestada por outros. Mas mal compreendida e objetificada por causa da boa aparência. "Boa demais" para alguém se aproximar, mas não é "boa o bastante" para realmente ser amada. Não apenas o amor romântico, mas sim... amor

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